sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Em Teu Ventre - José Luís Peixoto [Opinião]

Título: Em Teu Ventre
Autor: José Luís Peixoto
Edição/reimpressão: 2015
Páginas: 163
Editor: Quetzal Editores
PVP: 15,50€

Sinopse
«Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.» Numa perspetiva inteiramente nova, Em Teu Ventre apresenta o retrato de um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917. Através de uma narrativa que cruza a rigorosa dimensão histórica com a riqueza de personagens surpreendentes, esta é também uma reflexão acerca de Portugal e de alguns dos seus traços mais subtis e profundos. A partir das mães presentes nesta história, a questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões, nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos filhos. O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e de milagre, confere a Em Teu Ventre um lugar que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo.

A minha opinião: 
Em Teu Ventre é um livro sobre as Aparições de Fátima. Contudo, se pensa, à partida, que o autor vai tecer considerações sobre o milagre, desengane-se. José Luís Peixoto distancia-se da polémica em torno das aparições de Nossa Senhora a três crianças (ele não gosta de lhes chamar pastorinhos) e faz apenas, e com mestria, o retrato da época, na Cova de Iria.
Fui à apresentação do livro, em Aveiro, com o livro lido e tive vontade de o ler novamente. Tenho de o ler novamente. Há sempre coisas que ficam por ler. A escrita de Peixoto é toda ela poesia. E a poesia lê-se e relê-se e sente-se.

Mais do que centrar-se na aparição o autor foca-se na relação de Lúcia com a mãe, Maria. Uma mãe atenta, preocupada, como são (quase) todas as mães. No fundo, Em teu Ventre é um elogio às mães, não fosse Maria o nome de todas as mães, que carregam no seu ventre os filhos, o ventre, o gerador da vida.
Por isso mesmo, não é de estranhar que a história se centre na questão das mães, na mãe de Lúcia; em Nossa Senhora; e na mãe do autor, a mãe da nossa consciência, a mãe de todas as nossas dúvidas.

Depois, há a religiosidade, mas o ser-se criança também. Lúcia, a mais velha dos primos, em 1917 tinha apenas 10 anos. E gostava de brincar. Os primos também. E ajudavam também. E não vivia na miséria como muito se tem falado... A magia deste livro também foi esta, o ter mudado a forma como via Fátima. Levou-me para a época, para a ruralidade, para o dia a dia daquelas crianças, porque é de crianças que se tratam de facto, para a desconfiança da própria igreja em relação às aparições de Nossa Senhora e novamente para a escrita de José Luís Peixoto. Tenho de pegar no Galveias.

Excelente leitura.


Excertos:
"(Talvez porque escreves livros, pareces convencido de que toda a gente precisa de saber ler. Não creias, há ignorâncias muito piores. Eu sei que é triste sermos obrigados a ficar do lado de fora, sem autorização, como se quisessem fazer-nos ver que não temos a valia dos outros. Conheço bem essa ofensa, acredita. mas repara em tantas vidas que prosperam sem uma letra, repara também em quantos sabem ler e nunca chegam a passar de imbecis.)" pag. 84

"As palavras deixaram de ter alguém que as diga. As palavras andam sozinhas, transportam uma certeza, conduzem-na de rosto em rosto." pag. 111



Nossa Língua — "Não são as palavras que distorcem o mundo". from imaeditorial on Vimeo.



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